NA MIRA
Por: Arthur Henrique Ims Gomes
Colégio Atuante
Gênero: Suspense sobrenaturalAlberto. Um itapirense comum, que levava uma vida tranquila como estagiário e ajudava nos negócios da família. Mas havia meses, uma ideia martelava sua mente: fazer um passeio a pé pela Rota 32 para conhecer um dos pontos mais marcantes da história da cidade.
Quando conseguiu tirar férias, a empolgação tomou conta. Finalmente realizaria o sonho que tanto aguardava. Arrumou a bolsa com suprimentos, alguns itens necessários e... lenha. Por algum motivo, sentia que precisaria.
O dia da viagem havia chegado e Alberto estava ansioso. Ele aguardava a rota — ou a rota o aguardava. Começou pelo Parque Juca Mulato e logo chegou a Eleutério, muito rápido, movido pela empolgação. Queria conhecer as trincheiras.
Por sorte, um fazendeiro o deixou entrar em suas terras e Alberto logo adentrou as tão aguardadas trincheiras. Entrou em uma área profunda e estreita e, por algum motivo estranho, notou que havia sangue seco nas paredes, no chão de terra, além de balas e pentes de armas espalhados.
Apesar de pequenas, as trincheiras tinham grande extensão. Alberto caminhava tranquilamente por lá, tirando fotos e registrando tudo em seu pequeno caderno. Dava suas opiniões, anotava características das trincheiras, às vezes desenhava os detalhes.
O sol já estava alto. O pouco calor do inverno já se fazia sentir pelo ar. O jovem explorador continuava sua caminhada até que decidiu parar para comer a comida que havia feito em casa no dia anterior. E, como consequência, acabou pegando no sono.
Enquanto cochilava, teve um sonho estranho: estava em um cenário pós-guerra e recolhia corpos de soldados — a maioria paulistas, mas também alguns de Vargas. À frente, havia um soldado morto, com pele cinza, alvejado, olhos brancos. Alberto tentou andar. Nada. Tentou gritar. Nada. Tudo estava congelado, menos o soldado, que começou a andar em sua direção, lentamente, de forma agoniante.
No meio do caminho o dia virou noite — como num estalar de dedos. Tiros foram ouvidos de perto. Tudo começou a queimar. E o soldado? Estava agora bem na frente de Alberto, parado, encarando-o com um olhar morto e vazio. Então, seus olhos começaram a sangrar. O nariz também. O soldado segurou o rosto de Alberto com as duas mãos e disse:
— Saia daqui!
Alberto acordou assustado. Ainda era dia, o sol havia abaixado um pouco. Devia ser por volta de uma hora da tarde. Sentia algo molhado nas maçãs do rosto, com cheiro de ferro. Passou o dedo e viu o inconfundível líquido escarlate.
Limpou o sangue, levantou-se e decidiu continuar a caminhada pelas trincheiras. Burro, não? Mas ele continuava. Ainda era seu sonho de infância e ele não desistiria tão fácil. Talvez o sangue fosse coincidência... Era o que ele pensava.
Caminhava calmamente, como se nada tivesse acontecido. Até que viu algo: uma cruz feita de galhos assimétricos. E, como qualquer doido faria, simplesmente chutou a cruz, quebrando-a.
Já eram quase três horas da tarde e ele continuava andando, anotando... até que percebeu: as trincheiras não acabavam. Pareciam intermináveis. Quando tentou sair por uma escada, uma voz sussurrou:
— Você deveria ter saído enquanto podia!!!
Alberto caiu da escada — que já não estava mais lá. “Como isso pode estar acontecendo?!”, pensou. “Isso não era um sonho?!” Mas, agora era tarde demais. O inferno estava chegando para puni-lo.
Tentava encontrar uma saída daquela maldita vala. Pulava, empilhava caixotes. Nada. De repente, começou a sentir um leve cheiro de pólvora, que só aumentava. Neste momento, o jovem sabia que algo ruim estava para acontecer.
Com o passar das horas, já começava a escurecer. Era inverno e o frio se intensificava. Alberto estava desesperado, com medo. A adrenalina estava no limite e tudo piorou ainda mais quando uma figura familiar voltou...
O soldado. Ele voltou, caminhando em direção a Alberto que congelou, sem reação e só observava o soldado se aproximar. E então, Alberto correu. O soldado fez o mesmo.
Enquanto corria, observava balas e pentes de armas usadas na Revolução Constitucionalista de 32, mas isso já não importava, ele precisava fugir rápido, muito rápido. Se não, morreria.
Anoiteceu. A perseguição cessou, mas Alberto sabia que ela poderia recomeçar a qualquer momento. Tudo era instável naquele lugar. Já muito cansado, ele adormeceu. Mas, no sonho, uma voz familiar o chamou:
— Você! Como ousa desrespeitar nosso local de descanso eterno?! Quem lhe deu permissão para chutar a cruz de um dos nossos companheiros de batalha?! Estúpido!
Alberto acordou com um pulo. Já era manhã. Os pássaros cantavam. Tudo o que mais queria era estar em casa, no calor do seu quarto. Percebeu que seu maior sonho estava se tornando sua ruína.
O cheiro de pólvora ainda estava lá. As balas e os pentes também. Mas havia algo novo: o ar cheirava à putrefação. O chão das trincheiras estava coberto por cadáveres de animais. Tudo só piorava.
Naquele momento, nada de soldado — ainda bem. Por enquanto. Alberto abriu a bolsa, tirou um pacote de bolachas e começou a comer. Afinal, ninguém aguenta estômago vazio.
Após comer, o inevitável aconteceu. O soldado reapareceu — correndo. A perseguição recomeçava. E Alberto não perdeu tempo. Correu mais rápido do que nunca.
O soldado o perseguia implacavelmente. Pisava nos cadáveres, corria como se nada o impedisse. Alberto tropeçava, mas seguia. Não era hora de pensar, era hora de correr.
A perseguição durou até Alberto cair no chão. Olhou para trás, esperando o golpe final. Mas... nada. O soldado sumira. Parecia que queria brincar com sua sanidade. Uma tortura psicológica.
Ali, deitado entre balas, cadáveres e cheiro de pólvora, pensava: “Será que vou conseguir escapar desse inferno?” E se não conseguir? O que será de mim?
Andava, pensava numa saída daquela maldita trincheira. Mas esse era seu sonho... por quê? Agora era tarde para arrependimentos. O foco era a sobrevivência. Só isso.
A tarde caía novamente. Alberto, tomado pelo medo, fora perseguido mais duas vezes naquele dia. Parecia que o soldado estava irritado — e agora, queria matá-lo de verdade.
Cansado, quase dormindo, Alberto sofreu um ataque surpresa do soldado. Dificultou a fuga. Mas o soldado perseguia com raiva, com energia de sobra.
A perseguição continuava. Só que agora, as trincheiras estavam escuras, pegando fogo, com sons de disparos, gritos e choro. Tudo era real: o fogo, os tiros, o terror.
O soldado se aproximava e a cada passo, a cada respiração, o fim parecia certo. Aviões antigos sobrevoavam. O soldado estava a um palmo de distância quando...
BOOM! Um avião lançou uma bomba bem onde estavam.
Tudo escureceu. Silêncio.
Dois meses depois...
Alberto estava em casa. Inteiro. Tudo o que viveu nas trincheiras parecia superado. Rápido demais. Nunca mais voltou à Rota 32.
Mas sua vida? Voltou ao normal? Errado.
Desde então, todos o ignoravam. Quando retornou ao trabalho, seu chefe nem o notou. Por outro lado, desde a Rota 32, nunca mais ficou doente. “Há males que vêm para o bem”, pensava.
Sua vida seguia nos trilhos... até o dia em que foi visitar sua namorada.
Chegando lá, tentou conversar com ela:
— Querida, até você? Por que me ignora?
Enquanto falava, ela adormeceu no sofá, deixando cair o anel de Alberto.
Quando olhou para o anel no chão, tudo começou a fazer sentido. Todos o ignoravam porque ele estava morto.
A bomba o havia matado. O anel em sua mão... já não existia.
E então, o viu.
O soldado.
Parado. Sorriso mórbido.
— Venha para o seu real fim. O inferno te quer morto. E você está na mira...
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