CONTO 7: Vivo no inferno, ainda assim respiro, de Ellen Ferreira (Sesi de Itapira)

 

Vivo no inferno, ainda assim respiro

Por: Ellen Ferreira

Sesi (Serviço Social da Indústria)

Gênero: Drama

Em 7 de março, na pequena comunidade da cidade de Itapira, nasceu Dantes da Cruz, um garoto que desde a infância carregaria as marcas e as dores de um lar hostil.

A casa onde cresceu era feita de tijolos mal acabados, paredes que nunca viram tinta e portas que não trancavam o medo. A mãe, ausente por necessidade, estava sempre limpando as casas das madames, fazendo o que podia. Já o pai, quando não estava bêbado, estava agressivo. O silêncio se tornava um abrigo, e Dantes aprendeu cedo a esconder a alma embaixo da cama.

O bairro era estreito, cortado pelas linhas de pipa dos moleques que ali habitavam. Gritos eram mais comuns que risos. Ainda assim, Dantes tinha seus refúgios: um campo de terra batida onde chutava bola com os meninos da rua, e a laje do vizinho, de onde via o céu e pensava que talvez houvesse mais além daquele concreto.

Mas o mundo não aliviava. A vida vinha sem manual, e a quebrada cobrava.

Aos 12 anos, Dantes já sabia que a vida não facilitaria. Entendia que todos tinham o seu corre, mas a vida começou a passar diferente quando percebeu que teria que correr por dois, três, quatro... Crescer ali era virar adulto antes da hora. O tempo não passava, escapava.

Foi nesse cenário que conheceu Ramalho, seu melhor amigo. Tinham a mesma idade, a mesma indignação e a mesma sede de fugir. Jogavam bola, dividiam o que tinham para comer e os mesmos medos. Mas enquanto Dantes olhava para o futuro com ódio, Ramalho parecia ter pressa de viver tudo de uma vez. Era carismático, envolvente e, aos poucos, foi se aproximando dos caras do corre.

— É só um favor, mano. Levar uma parada daqui até ali. Nem é droga pesada. Só um trampinho rápido — dizia Ramalho, tentando convencer Dantes.

Mas Dantes hesitava. Lembrava das palavras de seu tio Jaílson, um ex-detento que, depois de passar nove anos no sistema, agora vendia caldo de cana e contava histórias com a voz arrastada de quem já viu o inferno e voltou.

— Não vai nessa, moleque — avisava o tio — Ser vida loka não é fazer besteira, é sobreviver. É cuidar da tua mãe. É ter postura. Quem quer cadeia é o sistema, não você.

Essas palavras ecoavam na mente de Dantes como um mantra. E ele resistia.

O tempo passou. Dantes começou a escrever. Primeiro em cadernos velhos, depois em folhas soltas. Falava da sua rua, da sua dor, dos seus sonhos. Sua mãe não entendia, achava perda de tempo.

Mas ali, naquela escrita pura e sincera, Dantes encontrava um pedaço de liberdade.

Ramalho, por outro lado, mergulhava mais fundo no corre. Comprava tênis caro, celular novo.

Começava a ser respeitado — ou temido. Aos 16, já tinha mais grana do que qualquer adulto da rua. Mas também colecionava inimigos.

Foi numa terça-feira, quando faziam 10°C, que tudo mudou.

De repente, ouviu os tiros. Um, dois, três. Depois o silêncio. Correu em direção ao beco onde sempre se encontravam. Encontrou Ramalho caído, o olhar vazio mirando o céu. Um vermelho escorria pelo chão de terra; sonhos, medos, tudo ali já não existia mais. Tudo que restava era a pressa da morte.

Sentiu o peito apertar. Chorou ali mesmo, sem vergonha. A polícia chegou minutos depois, gritando, empurrando, perguntando. Mas Dantes só olhava para o amigo, sem entender como aquele brilho nos olhos se apagou tão rápido. Promessas de uma vida vantajosa, sonhos e vários amanhãs estavam se esvaindo diante dele.

No enterro, poucas palavras, muito ódio. A mãe de Ramalho não conseguia ficar de pé. Dantes prometeu a si mesmo que não seria mais um nome esquecido. Ele viveria diferente, por ele e por Ramalho.

Aos 17 anos, Dantes começou a frequentar um projeto social no centro da cidade. Ajudava nas casinhas, dava aulas para os menores e compartilhava seus textos. Ali, mais do que palavras, nasciam novos começos. Olhares antes travados, fechados e cheios de ódio se libertavam ao perceber que, bem ali, diante deles, existia alguém que já havia sentido a mesma dor, o mesmo aperto no peito, a mesma falta de fé, como quem levanta todo dia mas não vê nascer o amanhã.

Um educador, impressionado com sua sensibilidade e talento, o incentivou a escrever um livro.

Dantes riu da ideia no começo, achando improvável. Mas, aos poucos, começou a reunir suas histórias, como quem recolhe os pedaços de uma alma estilhaçada.

O livro veio. Pequeno, independente, com capa simples, mas verdadeiro. Chamava-se Sobrevivendo no inferno. A quebrada leu. Chorou. Se viu ali. Ganhou voz.

Dantes nunca ficou rico. Ainda pegava ônibus lotado e morava na mesma casa de tijolo sem tinta. Mas agora, sua mãe sorria mais. O tio Jaílson mostrava o livro para todo mundo na feira. E ele? Continuava escrevendo, resistindo, vivendo.

Porque ser vida loka não era morrer cedo nem dar tiro. Era acordar todo dia e encarar o mundo.

Mas tem histórias que a gente só entende quando lê com outros olhos. E se alguém prestasse atenção naquele livro, nas entrelinhas, nos silêncios... perceberia que havia algo mais ali. Uma ausência que pesava mais que a presença.

A verdade?

O autor daquele livro não era Dantes.

Era Ramalho.

Dantes foi quem caiu naquela terça-feira gelada. Foi ele quem hesitou, mas mesmo assim aceitou o trampo, talvez por cansaço, talvez por medo de perder o amigo. Três tiros. Silêncio. O vermelho escorrendo. Fim.

Ramalho viu tudo. Chorou ali mesmo, como criança que perde o irmão. E foi naquele instante, diante do corpo do amigo, que algo dentro dele quebrou — ou, talvez, nasceu.

Ele achou os cadernos de Dantes dias depois, escondidos embaixo da cama. Textos rasgados de dor, mas vivos. As palavras de Dantes continuavam vivas, por mais que seu corpo já estivesse gelado. E ali, entre aquelas palavras manchadas de dor e incerteza, Ramalho encontrou um caminho que nunca tinha enxergado.

Começou frequentando o projeto nas casinhas, usando o nome do amigo. Contava a história como se fosse sua, porque, de certa forma, era. Escreveu o livro como homenagem, confissão, promessa.

Não para limpar o nome. Mas para garantir que o da Cruz nunca seria só mais um corpo no chão.

A quebrada nunca soube. E talvez nem precise saber.

Porque, no fim, não importa quem escreveu.

Importa que alguém ali sobreviveu para contar.


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