Tudo era mentira?
Por: Lorena Allicia Domingues Bariani
(Colégio Atuante)
Gênero: SuspenseO vento balançava os cabelos de Liliane. O frio na barriga subia até a cabeça. Seu sorriso era contagiante. Ou ao menos seria, se pudessem vê-lo. O brinquedo girava rapidamente; da fila, só se viam vultos. Mas Liliane permanecia sorrindo, extasiada.
Afinal, a Festa de Maio é assim: encanta a todos. As pessoas se enfileiravam ansiosas, a batida da música sincronizada aos corações. Gritos animados vinham de todos os brinquedos, entremeados por conversas e risadas. Itapira parecia vazia naquela noite — todos estavam na festa.
— Isso, Liliane! — gritou um menino. — Levante os braços!
Era Arthur, seu melhor amigo.
O aroma das comidas era forte: milho, sorvete, espetinhos de carne. Tudo dava água na boca.
Mas, de súbito, o ar ficou pesado, sufocante. Um cheiro de queimado surgiu. Luzes dispararam para todos os lados como uma descarga elétrica. De repente, a cor laranja tomou conta de tudo. O calor era insuportável. O brinquedo parou.
Gritos. Adrenalina. Todos corriam, desesperados para fugir das chamas. Como aquilo poderia ter acontecido?
Ao alcançar a grama — agora chamuscada — o alívio tomou conta dos sobreviventes.
— Liliane! — um grito estridente ecoou.
Era Arthur.
— Socorro! O cinto não destrava!
— Chamem os bombeiros! O fogo está chegando!
O fogo se aproximava cada vez mais. Arthur tentou subir os degraus para salvá-la, mas já era tarde. Tudo foi consumido pela cor laranja.
Mãos se apoiaram nos ombros do menino, afastando-o.
— Sinto muito, mas não há o que fazer.
Os gritos agudos e desesperados nunca mais seriam esquecidos. Pela primeira vez em muito tempo, a Festa de Maio estava vazia. O fogo caminhava, levando toda a alegria consigo.
— Não... — Arthur sussurrou, exausto, enquanto lágrimas escorriam.
Sirenes ecoaram. Os bombeiros haviam chegado.
— Vocês são inúteis! — Arthur gritou, com a voz falhando. — Onde estavam? Olhem o que fizeram com ela. Com Liliane...
— Eu sinto muito, querido — lamentou a bombeira, decepcionada consigo mesma. — Eu juro que tentamos.
— Como isso aconteceu? Fogo? Na Festa de Maio? Isso nunca... Por que justo com ela?
— É verdade, como o fogo surgiu? — perguntou um desconhecido. — Isso é um absurdo!
Seu parceiro, calado, seguia apagando as chamas. Mas Liliane havia virado cinzas.
— Prometo que iremos descobrir. Só precisamos de tempo. Vocês viram como começou? Houve um estrondo? Fumaça?
— Começou com uma descarga elétrica, eu acho. Era o que parecia. Eu não sei... só conseguia olhar para Liliane.
— Vamos verificar os fios.
Enquanto os bombeiros caminhavam até o fundo do brinquedo, um carro passou rapidamente pelas ruas vazias. Uma mulher desceu, procurando alguém. Seus olhos encontraram Arthur, e ela correu até ele. Ele se jogou em seus braços.
— Mãe...
— Eu sei, meu amor. Eu sei...
Os bombeiros apareceram logo depois, perguntando pelo monitor do brinquedo.
— O que houve? — a mãe questionou.
— Não foi um acidente. Os fios foram cortados — disse um bombeiro, segurando uma lanterna.
— Ai, meu Deus... — Arthur ficou pálido.
— Me procuram? — perguntou uma moça, franzindo as sobrancelhas.
— Você é a monitora?
— Sim... Mas eu juro que não tenho nada a ver com isso!
— Não, só precisamos ver as câmeras.
— Ah! Creio que não será possível, já que tudo foi queimado.
Ao ouvir isso, o bombeiro deixou a lanterna cair. Estranhamente, ela parou diante da bota vermelha da moça.
— Eu... me esqueci completamente. Desculpe.
— Claro... — respondeu ela, desconfiada. — Bom, acho que já vou então.
— Moço, tem um garoto querendo falar com o senhor — disse uma senhora.
Um adolescente, confuso, aproximou-se.
— Eu vi quem fez isso. Eu estava lá atrás quando tudo aconteceu. Era uma mulher, disso tenho certeza. Mas não sei quem é. Usava um capuz, roupa toda preta... mas tinha uma bota vermelha. E também...
— Espere! Uma bota vermelha? Tem certeza?
— Absoluta. Por quê?
— Não posso acreditar nisso!
O bombeiro pegou o telefone e ligou para a polícia. Saiu correndo, puxando a parceira, contando a história no caminho.
— Espera! A monitora? Ela entrou numa casa.
— Casa? Qual casa? Vamos rápido!
A casa parecia comum: amarela, com arbustos floridos. Os bombeiros se surpreenderam ao encontrar o portão destrancado.
— Quem deixa a porta aberta depois de cometer um crime?
— Shhh! Assim você vai ser a próxima... — sussurrou o parceiro.
Entraram na ponta dos pés. De repente, um cheiro estranho tomou o ar. À direita, um gás verde começou a se espalhar. A visão embaçou. Uma enxaqueca pulsante os atingiu.
— Aproveitem, seus patéticos! — a monitora gargalhou, abrindo a porta.
Eles correram, tentando fugir do gás atordoante.
— Renda-se! — gritou uma voz. Era um policial.
A mulher arregalou os olhos, recuando. Os bombeiros aproveitaram para escapar e tossiam, sem fôlego.
— Nunca! — gritou a farsante.
— Pois então, prove do seu próprio veneno.
A porta se fechou. A mulher gritou por ajuda. Logo surgiram a tosse, a dor de cabeça.
— Tudo bem, eu me rendo! — disse, sem ter opção.
Os policiais suspiraram, aliviados, e a algemaram.
— Vocês não entenderiam! Todos se importaram com ela! Mas isso poderia ter sido evitado se tivessem ligado pra mim! Eu não queria matá-la, só queria colocar fogo nessa festa idiota. Vocês não têm ideia do que eu passei aqui! Eu era só uma criança. Queria dançar, orgulhar meus pais, mas sempre que chegava havia cochichos, risadas, olhares de repulsa. Sabem o trauma que isso causa numa criança?! Um dia colocaram o pé na minha frente, caí, todos riram. Ninguém me ajudou. Eu fiquei lá, chorando, suja, patética. EU ODEIO ESSA FESTA! EU ODEIO VOCÊS!
— Eu entendo. Mas isso não justifica matar uma garota inocente. Pode imaginar o que a família dela está sentindo?
— Acha que eu ligo? Ao menos agora vocês saberão o que é ter medo.
— Já chega. Vamos resolver isso na delegacia.
Dois policiais seguraram seus ombros e a arrastaram. A mulher gritava o caminho inteiro:
— Eu volto! Eu vou me vingar!
— E é por isso — concluiu a voz — que ninguém nunca mais teve coragem de subir no Twister... com medo de que a monitora malvada escapasse da cadeia e queimasse toda a alegria da Festa de Maio novamente!
— Ai, vovó! Não acredito que inventou tudo isso só pra eu não ir à Festa de Maio hoje! Eu disse que volto antes das 22h!
Comentários
Postar um comentário