O Último Baile da Penha
Por: Luigi Vitório Sartorelli
Etec (Escola Técnica Estadual) ‘João Maria Stevanatto’
Gênero: Fantasia urbana
Quando eu era pequeno, sempre gostava de ouvir meu avô contar lendas e mitos de nossa região. Ele tinha o costume de inventar histórias ou resgatar antigas narrativas populares, sempre com um brilho nos olhos e uma voz grave que fazia tudo soar verdadeiro.
Uma certa tarde ensolarada, estávamos no parque Juca Mulato, tomando o tradicional sorvete da kombi azul. Os passarinhos cantavam, e as folhas dançavam com o vento leve que soprava. O cheiro de grama se misturava ao barulho das crianças brincando no escorregador enferrujado.
Foi então que, entre uma lambida no sorvete de uva e outra, ele me perguntou se eu conhecia a história da cidade que sumiu da noite para o dia. Em dúvida, respondi que não e perguntei como isso havia acontecido.
Ele apenas sorriu, terminou seu sorvete com calma e começou a me contar a história da cidade de Penha do Rio do Peixe:
“Era uma daquelas cidades escondidas entre vales e morros, cercada por matas e cruzada por um rio largo e calmo, de águas escuras e frias. Suas ruas de paralelepípedo ainda guardavam os sons dos passos dos tropeiros de antigamente, e cada esquina parecia guardar um segredo do passado.
As casas, de janelas altas e portas coloridas, exibiam vasos de flores e cortinas bordadas à mão. Os moradores se cumprimentavam pelo nome e ajudavam uns aos outros sem pedir nada em troca. A praça era o coração da cidade, onde crianças corriam e velhos contavam causos, e onde todo mundo esperava com ansiedade a chegada da virada do ano.
Um bom jazz era o que tocava naquela agitada noite de 31 de dezembro de 1889, na praça municipal da cidade de Penha do Rio do Peixe. As ruas estavam todas iluminadas, e as casas decoradas, esperando aquela virada de ano.
No clube XIV de Novembro, a festa já havia começado para seu tradicional e marcante Réveillon. A escadaria cheia de plumas deixava evidente que ali o ano começaria em bom estilo. Já no salão, as resplandecentes cortinas e a farta mesa explicavam de onde vinha toda a empolgação dos que se preparavam para a última noite do ano.
Após algumas horas, uns martinis e bons licores, Munhoz, o prefeito da cidade, pediu atenção. A música parou. Ele levantou seu cálice e disse: “Ergo meu cálice à esperança de novos tempos."
Todos brindaram felizes à espera de um próspero ano novo. Foi então que um grito ensurdecedor ecoou pelo salão, deixando todos em completo espanto. Era Áurea, dona de uma boutique, que estava ouvindo a rádio local, Gazeta da Penha.
Perplexa, começou a chorar. Todos tentaram acalmá-la, oferecendo água, abanando-a com guardanapos de tecido e perguntando o que havia acontecido.
Ainda em choque, ela disse que o locutor anunciara que aquela era a última noite da cidade no ano. Riram, disseram que era brincadeira, que ela já passara da conta.
Mas Pedro, o banqueiro, de terno branco e bigode fino, falou em um tom mais alto: “Áurea não está errada. Da voz saída do rádio, nós ouvimos que a cidade irá desaparecer hoje!”
Neste momento, os burburinhos tomaram o salão. Um ar de dúvida, quase palpável, pairava sobre todos. Os olhares se cruzavam em busca de alguma explicação lógica. Um garçom deixou cair uma bandeja; o barulho dos copos quebrando foi como um sino fúnebre.
Dúvidas surgiam: “Será que estão nos pregando uma peça?”, “Como isso vai acontecer?”, “Sumir do mapa?”, “Uma bomba?”, “Um castigo divino?”, “Um assassinato em massa?”. As teorias se sobrepunham, e os risos nervosos já não escondiam o medo.
Um espantoso silêncio ficou contido no espaço, que era para ser de grande alegria.
Até que uma voz surgiu quebrando aquela quietude. Era Joaquim, um pensador e escritor conhecido por sua mente inquieta. Ele levantou-se devagar, ajeitou os óculos e, com algumas reflexões, proclamou aos colegas:
“Se esta realmente for nossa última noite, por que, ao invés de entrarmos em estado de luto, não aproveitamos e, assim, finalizamos — ou não — nossas vidas em harmonia e festa?”
Aos poucos, expressões de dúvida começaram a se transformar. Alguns riram, outros choraram, abraçaram-se, brindaram novamente. Era como se, ao aceitar o absurdo, tivessem reencontrado o controle.
Já se dava para ouvir alguns sussurros retornando àquele lugar tomado de medo — agora substituído por uma melancolia leve e uma vontade genuína de viver aquele instante.
Após o discurso, os presentes chegaram à conclusão de que o melhor a se fazer era realmente aproveitar como se não houvesse amanhã — e talvez, realmente, não houvesse.
A música voltou a tocar, os casais dançaram como se cada passo fosse o último, e os brindes se multiplicaram sob um céu estrelado. As risadas ecoaram até altas horas.
Por volta das três da manhã, aos poucos, todos foram pegando no sono, uns nos sofás, outros nas cadeiras, ou mesmo nos degraus da escadaria.
E ninguém nunca mais ouviu falar daquela cidade.
Quando os primeiros raios de sol tocaram o vale onde antes existia Penha do Rio do Peixe, tudo o que restava era o silêncio. Nem ruínas, nem placas, nem escombros. Apenas o rio, calmo e silencioso, continuava seu curso, como se guardasse para si o segredo de tudo o que aconteceu naquela noite mágica e impossível.”
Quando ele terminou de contar, fiquei perplexo. Era uma história que parecia absurda demais para ser verdadeira, mas que carregava em si algo que eu não conseguia ignorar.
Após alguns anos de amadurecimento, entendi que, às vezes, algumas coisas devem deixar de existir para haver prosperidade, assim como uma semente que precisa morrer para transformar-se em uma perfumada flor.
Nem tudo o que desaparece se perde. Algumas coisas, ao sumirem, apenas mudam de forma para florescerem de outra maneira.
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