CONTO 8: O Sangue que a Chuva não Lavou (ou lavou?), de Kaique de Moraes Costa (Sesi - Itapira)

 

O Sangue que a Chuva não Lavou (ou lavou?)

Por: Kaique de Moraes Costa

Sesi (Serviço Social da Indústria)

Gênero: Suspense psicológico

Tudo ocorreu em 1974, em uma cidade pequena, com menos de 50 mil habitantes, conhecida como Itapira (ou Penha do Rio do Peixe, como era chamada antigamente), no interior de São Paulo. Era o auge da Ditadura Militar, um período de censura, repressão e concentração de poder. Tempos sombrios, marcados por silêncios forçados e histórias apagadas.

Em uma noite chuvosa, na sexta-feira, um grupo de amigos jovens aproveitavam, mesmo sem saber, seus últimos dias de vida. Marco, de 15 anos, um menino branco, alto, de cabelos longos que fazia parte da elite da época; Moisés, de 16 anos, um garoto negro, de cabelos curtos e cacheados, fazia parte da classe baixa trabalhadora; Rebeca, de 14 anos, uma menina parda, de baixa estatura, com cabelos pretos como a noite e lisos como uma seda, tinha uma boa qualidade de vida, porém não fazia parte da elite, ela odiava como eles agiam, só havia a exceção do Marco, que era diferente dos outros. 

Uma amizade como a deles, improvável para aquele tempo, chamou atenção até do Jornal de Itapira. Mas não ficaria registrada na seção de sociedade, e sim na mais sombria das páginas: o obituário.

Os amigos tinham o costume de que, sempre que eram liberados da escola, saíam dar um “rolê” em um dos pontos mais famosos da cidade: o Parque Juca Mulato, ponto de encontro de vários eventos e naquela sexta-feira não foi diferente, Marco, Moisés e Rebeca foram direto para lá depois de um dia cansativo e o trio encontrou refúgio sob a marquise do coreto, o som da chuva no telhado abafando as risadas e os segredos que compartilhavam. Rebeca, com seu jeito contestador, criticava um artigo que lera no jornal, enquanto Marco a defendia com um sorriso e Moisés observava os dois, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, parte de algo verdadeiro. 

O que eles não perceberam foi a figura alta e robusta que os observava do outro lado da pequena praça, parcialmente escondida pela folhagem densa de uma paineira. Era Vicente, o irmão mais velho de Rebeca. Com seus 20 anos, ele era o retrato do homem que a sociedade da época esperava: trabalhador, sério e protetor ferrenho da reputação da família. Ele havia sido alertado por vizinhos sobre a "amizade inaceitável" de sua irmã. Ver Rebeca, tão próxima de um "filhinho de papai de cabelo comprido" e de um "garoto negro", foi a faísca que acendeu seu pavio. 

Vicente não planejava uma tragédia. Em sua mente, ele ia apenas "dar um susto" nos rapazes, "colocá-los em seu lugar" e arrastar Rebeca de volta para casa. Com o coração martelando de raiva e preconceito, ele avançou na direção do coreto. 

"Rebeca! Pra casa, agora!", sua voz soou como um trovão, cortando a noite chuvosa. 

Os três se sobressaltaram. Rebeca se levantou, o rosto pálido.

 "Vicente? O que você está fazendo aqui?" 

"O que você está fazendo com esses dois? Envergonhando nosso nome!", ele cuspiu as palavras, o desprezo evidente ao olhar para Marco e Moisés. 

Marco, com a bravata típica da juventude, se pôs na frente de Rebeca. "Ei, calma aí, cara. Não tá acontecendo nada..." 

"Cala a boca, playboy!", Vicente o empurrou com força. Moisés tentou intervir, pedindo calma, mas a raiva de Vicente já havia transbordado. Ele sacou um canivete que sempre carregava. A intenção era apenas intimidar, mas, no caos que se seguiu, tudo saiu do controle. 

Em meio ao empurra-empurra na penumbra escorregadia, Rebeca tentou se meter entre o irmão e os amigos. "Para, Vicente! Para!". O grito dela foi cortado por um som abafado. No breu, o brilho da lâmina se moveu rápido demais. Um, dois, três corpos caíram sobre o piso de ladrilhos vermelhos do coreto. 

Vicente, em pânico, olhou para o que tinha feito. O sangue se misturava à água da chuva. Ele viu o peito de Marco, a barriga de Moisés e, para seu horror absoluto, o vestido de sua própria irmã manchado de um vermelho vivo. Em sua fúria cega, no movimento desesperado para se desvencilhar, ele a atingira. 

Desesperado, ele fugiu, desaparecendo na noite, deixando para trás um silêncio mortal, quebrado apenas pelo som da chuva. 

Na manhã seguinte, a cena chocou a pequena Itapira.

TRAGÉDIA NO PARQUE: TRÊS JOVENS MORTOS EM NOITE CHUVOSA” — estampou o Jornal de Itapira.

 A polícia, pressionada pelas famílias influentes e sem muitas pistas (Vicente nunca confessaria), tratou o caso como um latrocínio, um assalto seguido de morte, cometido por um "marginal desconhecido". 

No pequeno hospital da cidade, os três jovens foram declarados mortos. As famílias, em choque, prepararam os funerais. Os corpos de Marco e Rebeca foram velados e enterrados com a comoção da cidade. Mas um deles não estava morto. 

Moisés. A facada o atingira em um local grave, mas não instantaneamente fatal. Ele perdeu a consciência devido à perda de sangue e ao choque. No caos do pequeno necrotério, com recursos limitados, seu pulso fraco e sua respiração superficial passaram despercebidos. Ele foi dado como morto. 

Seu corpo, no entanto, por ser de uma família pobre e sem recursos para um funeral imediato, foi mantido por mais tempo em uma sala fria. Foi lá que um velho auxiliar de enfermagem, ao preparar o corpo para o enterro no dia seguinte, notou um leve tremor na pálpebra do rapaz. Um milagre. Uma segunda chance. 

Com medo do escândalo e da própria incompetência, a direção do hospital agiu em segredo. Moisés foi transferido durante a noite para um hospital maior em Campinas, sob um nome falso. Sua família foi informada de que houve um "engano" na identificação e que o corpo enterrado como sendo dele era de um indigente. Para a pequena Itapira, Moisés continuava oficialmente morto. 

 

Ano: 2014.

Local: um pequeno apartamento em outra cidade.


Moisés, agora um homem de 56 anos com fios de prata nos cabelos cacheados, lia as notícias em seu computador como fazia todas as manhãs. Por um hábito que nunca abandonou, sempre abria o portal do "Jornal de Itapira". Um nome na seção de obituários o fez gelar. Vicente Mattos, 60 anos. A foto mostrava um senhor de aparência respeitável, o texto o descrevia como um "empresário exemplar, pilar da comunidade e homem de família". 

Uma raiva fria, adormecida por quatro décadas, subiu pela espinha de Moisés. Aquele homem vivera uma vida inteira de mentiras, condecorado pela mesma sociedade que ele fora forçado a abandonar. O medo que o acorrentara por tanto tempo finalmente se quebrou, substituído por uma necessidade inadiável de justiça pela memória de seus amigos. 

Naquela mesma manhã, ele abriu um editor de texto e começou a digitar. Suas mãos tremiam, não mais de medo, mas de resolução. O destinatário era a redação daquele mesmo jornal. 

Assunto: Carta Aberta: A Verdade Sobre a Tragédia do Parque em 1974

“Meu nome é Moisés, e eu não morri em 1974.
Por quarenta anos, o mundo acreditou que fui assassinado naquela noite, no coreto do Parque Juca Mulato, ao lado dos meus melhores amigos. Eu mesmo li meu obituário no ‘Jornal de Itapira’ que um enfermeiro me trouxe, semanas depois, quando já conseguia respirar sem ajuda.

Eu sobrevivi, mas carreguei o peso daquela noite em silêncio. O medo me paralisou. Vicente, o irmão de Rebeca, era poderoso em sua pequenez, e eu sabia que ninguém acreditaria no garoto negro e pobre contra ele. Minha família, engolindo a dor de uma morte que não aconteceu, mudou-se de Itapira para sempre. E eu cresci em outra cidade, com outro nome, sempre olhando por cima do ombro.

Hoje, li no obituário de vocês sobre a morte de Vicente, o ‘empresário respeitado’. Por isso, a verdade precisa ser dita. Pela memória de Marco, que morreu me defendendo. E, principalmente, pela memória de Rebeca, que morreu pelo ódio cego de um irmão que jurava protegê-la.

Aquela noite chuvosa de 1974 não foi um assalto. Foi um crime de ‘honra’. E a chuva, que lavou o sangue do coreto, nunca conseguiu lavar a minha memória.”




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