CONTO 3: A Volta de Menotti Del Picchia, de Nicolas Queiroz (Etec ‘João Maria Stevanatto’)

 

A Volta de Menotti Del Picchia 

Por: Nicolas Queiroz

Etec (Escola Técnica Estadual) ‘João Maria Stevanatto’

Gênero: Terror apocalíptico

Do fundo da cova, renasce como uma fênix Menotti Del Picchia, membro do famoso "Grupo dos Cinco" da Semana de Arte Moderna de 1922. Por um dia apenas, ele teria o direito de voltar à vida, desde que escolhesse um lugar especial para visitar. Sem pensar duas vezes, Del Picchia escolheu a majestosa cidade de Itapira, terra de muitos caipiras, onde havia passado dias preciosos em um parque que, segundo suas memórias, havia inspirado sua obra mais conhecida: Juca Mulato.

Animado com o reencontro, Menotti se preparou para o retorno à sua terra amada. Após uma viagem de duas horas, saindo de seu túmulo na capital paulista, ele finalmente chegou à cidadezinha interiorana. No entanto, logo na entrada do parque, o escritor se deparou com uma cena que o deixou perplexo: gangorras, balanços e escorregadores completamente vazios, sem nenhuma criança brincando. 

Ao olhar para o lado, viu as crianças com um objeto que chamavam de celular nas mãos. Para sua surpresa - e tristeza - elas não apenas ignoravam os brinquedos do parque, como também o tratavam com desrespeito, chamando-o de “velhote” e fazendo piadas com sua idade. Menotti ficou decepcionado: lembrava-se da juventude em que as crianças passavam sorrindo, cumprimentavam com um “bom dia” e corriam livres entre as árvores. Agora, nem sequer levantavam os olhos das telas.

Mais adiante, algo ainda mais triste chamou sua atenção: o lixo espalhado pela mata verde. Havia garrafas plásticas, sacolas, canudos e latas jogadas ao chão - muitas vezes, ao lado de uma lixeira. A preguiça e o descaso das pessoas com o meio ambiente deixaram Del Picchia revoltado. Ele se perguntava como o ser humano havia chegado a um ponto tão lamentável de desrespeito à natureza.

Apesar disso, o parque ainda guardava surpresas. Em uma parte onde, em sua época, existia uma prisão que abrigava os mais diversos criminosos - de ladrões de galinha a assassinos em série - agora havia uma biblioteca moderna e acolhedora. Nela, além de obras contemporâneas que ele nunca ouvira falar, também encontrou clássicos da literatura brasileira e internacional. Ao se deparar com um exemplar de seu próprio livro, Juca Mulato, Menotti sentiu a raiva se dissolver, substituída por uma leve e sincera felicidade.

Continuando seu passeio, encontrou um palco ao ar livre, onde se apresentavam diferentes formas de arte. As memórias o levaram de volta às músicas de sua juventude: as modas de viola tão características da região e os sons marcantes do chorinho, especialmente a famosa Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu - melodia que embalou tantos momentos de sua vida.

Pouco depois, chegou a um museu natural com ossos e animais empalhados. Na sua época, o parque era mais simples - apenas grandes árvores e alguns bancos. Mas, apesar da simplicidade material, o que mais importava era a sensação de paz interior. Ao sentar-se nos antigos bancos, Menotti sentia suas preocupações desaparecerem como mágica.

Com o tempo de sua visita se esgotando, decidiu ir a um último local: a Casa Menotti Del Picchia. Ao ver seu próprio nome nas placas, se emocionou profundamente. Lá dentro, encontrou objetos pessoais, livros de sua autoria, roupas e até o fardão da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro. Caminhar pela própria história o encheu de orgulho e gratidão.

Por fim, com o coração repleto de lembranças, Menotti se dirigiu ao ponto de ônibus que o levaria de volta à eternidade. Ao se deitar em sua tumba novamente, lágrimas escorreram dos olhos já frágeis, marcadas não pela tristeza, mas por um sentimento de orgulho e missão cumprida. Sua vida como escritor e como homem estava finalizada - e, acima de tudo, dignamente celebrada.


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