Sombras do desejo
Por: Jheny Caroline
(AIPA – Associação Itapirense de Preparo do Adolescente – Guarda Mirim)
Itapira sempre foi uma cidade pequena e pacata, onde as rotinas se repetiam dia após dia. Pessoas simpáticas, mas desconfiadas; algumas com a língua afiada, que só sabiam falar coisas sem sentido, e outras que adoravam uma boa fofoca.
É o tipo de cidade em que muitos sonham morar, mas onde a maioria prefere apenas passar, como turistas curiosos.
Quando me mudei para cá, jamais imaginei que minha vida tomaria o rumo que tomou. Acreditei que seria apenas um refúgio, um lugar onde eu finalmente encontraria paz, longe da confusão da antiga cidade.
Mas algo aqui me chamou a atenção de uma forma que eu não esperava. Algo que, se tivessem me alertado antes, eu teria fugido sem olhar para trás.
Mas ele... o olhar dele sobre mim me fez ficar. Havia algo naquele olhar que fazia meu corpo estremecer, como se estivesse coberto de faíscas. Quando estou perto dele, parece que meus sentidos falham, meu corpo não obedece mais aos meus comandos — e o mais curioso é que, no início, eu nem percebi o olhar dele sobre mim. O olhar do Oliver.
Ele era discreto, quase imperceptível, mas com o tempo algo dentro de mim começou a notar. Eu sentia que ele me observava de longe, e por mais que isso devesse me assustar — e em parte assustava — havia também algo sedutor nisso e, por mais que eu tentasse afastar aquele sentimento, o destino parecia brincar comigo.
Em um dos meus passeios de fim de tarde, o vi com clareza. Estava próximo ao parque Juca Mulato, escondido atrás de arbustos, me observando enquanto eu lia. Talvez ele achasse que eu não o tinha notado. Mas então, uma jaca enorme caiu sobre sua cabeça, fazendo-o soltar um grito tão alto que quase me fez derrubar o livro.
Vi o exato momento em que ele tentou se esconder novamente, acreditando que eu não o tinha visto ou ouvido. Mas eu sabia. Sabia que ele estava ali. Sabia que ele me seguia em todas as redes sociais, acompanhava meus passos, meus horários, meus lugares preferidos. O que ele não sabia era que estava prestes a se envolver em algo muito maior. Algo perigoso. Algo que eu deveria ter enterrado e trancado a sete chaves... antes que fosse tarde demais.
Naquela noite, diante do espelho antigo no meu quarto, percebi que meus cabelos ruivos emolduravam um rosto cansado. Minha mente carregava memórias que eu desejava esquecer — medos, segredos, e sentimentos que eu sabia que não deveria ter. O espelho não era apenas um objeto de decoração; era um portal.
Um portal para algo que eu não compreendia... até presenciar.
Fumaças começaram a se formar sobre o vidro, escuras, pesadas, como se fossem me engolir a qualquer momento. Eu tentei recuar, tentei fugir, mas meus pés pareciam estar amarrados no chão. Uma breve ventania passou por mim, me causando arrepios, as luzes piscaram e então um rosto conhecido surgiu entre as fumaças e o espelho...
– Mariah... – uma voz fraca e trêmula sussurrou, carregada de dor.
Meu coração gelou. Minha mãe tinha morrido em um acidente quase cinco anos atrás, aquilo não podia ser real.
– Mãe? – minha voz saiu fraca.
– Você precisa fugir, não pode mais enfrentar isso, ele não está sozinho.
– O espelho foi o que me trouxe até você... mas não por muito tempo. Lembre-se: “Nada é real, a imaginação nunca falha, a sombra é do desejo.” Eu cantava pra você quando era pequena, lembra? – ela continuou, mas como se algo a puxasse, ela se debatia.
Nesse momento, ouvi um rangido do lado de fora, a janela entreaberta e do lado de fora estava Oliver, com os olhos arregalados e me encarando — ou melhor, para o espelho, ele via, ele viu tudo.
Me virei em pânico, as fumaças começaram a sumir, minha mãe desapareceu, mas Oliver continuava ali, paralisado, com a respiração acelerada. Ele sabia... e isso mudava tudo.
Então, sem hesitar, Oliver pulou minha sacada. Eu o olhei em pânico, mas ali entendi tudo: eles queriam ele... ele era a chave para que tudo aquilo acabasse, e só ele poderia destruir o espelho de uma vez por todas.
– Você... já sabia? – eu disse, minha voz saindo mais pesada do que deveria.
Sem respostas, o encarei. Ele ainda olhava fixo para o espelho, mas eu via o medo em seus olhos e, ao mesmo tempo, uma frieza enorme.
– Oliver... – o chamei novamente, com medo da resposta.
E então, com uma voz baixa, ele disse:
– Sempre soube, desde o início.
As luzes começaram a piscar, e o medo era evidente em meu rosto.
– Por que não me contou? – perguntei com a garganta seca.
– Mariah... Mariah, eu estive atrás de você esse tempo todo, apenas te protegendo. Todas as vezes eu a via aqui, em frente ao espelho.
– Mas... – tentei interromper.
– Se eu contasse, você tentaria me impedir – ele continuou.
Fumaças começaram a aparecer novamente, como se tivessem ouvido sua voz rouca. Uma possível ventania me causou calafrios, e o rosto da minha mãe apareceu por um momento curto.
Oliver, por sua vez, deu um passo à frente, com os punhos cerrados e a respiração acelerada, pronto para quebrar esse elo.
– Perdão, Mariah.
E com um grito alto, ele socou o espelho com toda a força. O vidro não apenas se quebrou — ele explodiu em estilhaços para todo lado.
O quarto, que tinha cores, ficou submerso em sombras e fumaças. O chão, por sua vez, estava com cacos espalhados.
Ofegante, me aproximei.
– Oliver. – o chamei uma, duas, três vezes com minha voz trêmula.
E ali estava ele, com as mãos ensanguentadas e caído de joelhos. Seu olhar estava fixo no vazio, como se algo tivesse saído dele junto com o espelho. Me aproximei dele devagar e me ajoelhei ao seu lado.
– Acabou...? – perguntei trêmula.
Oliver se virou devagar para mim. Seus olhos refletiam dor e medo, seus punhos continuavam fechados, e um sorriso surgiu em seu rosto — gargalhadas que eu não sei de onde vinham.
– Oliver...? – o chamei novamente.
Em um instante, Oliver fechou o semblante novamente e então sussurrou, com uma voz totalmente diferente e rouca:
– Não... – murmurou – Só começou.

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