A Última Canção
Por: Eduardo Vinicius Marques Theodoro
(AIPA – Associação Itapirense de Preparo do Adolescente – Guarda Mirim)
Gênero: Terror apocalípticoO sol castigava Itapira, um calor de rachar a terra avermelhada da zona rural que abraçava a cidade. Mc Jotinha, um jovem de pouco mais de vinte anos, com o “molho no corpo” e a rima sempre na ponta da língua, tentava emplacar um novo som no seu radinho a pilha.
A vida ali não era fácil. A grana era curta e a diversão, artigo de luxo. Por isso, quando os caminhões do governo chegaram distribuindo marmitas “para ajudar a população carente”, a notícia correu como um raio.
No começo, foi uma festa. Arroz, feijão, um pedaço de carne magra. Comida de verdade, sem ter que se preocupar em como ia encher a barriga naquele dia. Pedrinho pegou a sua, agradeceu meio desconfiado ao motorista de cara fechada e sentou na mureta da viela para almoçar. O gosto era meio estranho, um amargor sutil. Mas a fome era maior.
Naquela noite, a coisa começou a desandar. Primeiro, uma vizinha teve convulsões estranhas, os olhos revirando. Depois, Seu Zé da padaria começou a andar cambaleante pela rua, grunhindo. Em poucas horas, Itapira virou um caos: pessoas atacando umas às outras, mordidas violentas, gemidos famintos ecoando pelas ruas antes silenciosas.
Jotinha, trancado no seu barraco de tijolo furado, espiava pelas frestas da janela com o coração na garganta. Os vizinhos, antes sorridentes, agora eram figuras grotescas, pele pálida, movimentos descoordenados, sede de carne. A ficha caiu quando viu Dona Maria, a senhora que sempre lhe dava um pedaço de bolo, tentar arrancar o braço do Carlinhos da oficina.
"Mano… que p**** é essa?" pensou Jotinha, tentando processar a cena de horror. Lembrou das marmitas, do gosto esquisito. A raiva começou a borbulhar junto com o medo. O governo… era isso? Queriam se livrar deles como se fossem lixo?
A noite caiu densa sobre Itapira, iluminada apenas por faróis de carros desgovernados e fogueiras ocasionais. Jotinha sabia que não podia ficar parado. A água e a pouca comida que tinha não durariam para sempre. Pegou o facão enferrujado que usava para cortar cana no roçado do Seu Antônio, enfiou algumas roupas e o radinho na mochila velha e se preparou para sair.
Antes de abrir a porta, tentou sintonizar o rádio. Só estática. O mundo lá fora parecia ter entrado em pane. Respirou fundo, a batida do funk ecoando na sua cabeça como uma melodia de sobrevivência.
Com cuidado, abriu a porta. A rua estava silenciosa por um instante, até um gemido rouco quebrar o silêncio. Uma figura cambaleava na esquina. Jotinha agarrou o facão com força. Ele era só um funkeiro pobre de Itapira, mas não ia morrer ali, vítima de um plano macabro. Ele ia lutar. Usar a malandragem das ruas, a agilidade dos bailes, a garra de quem sempre batalhou por tudo.
Enquanto se movia sorrateiramente pelas sombras, um novo ritmo começou a tomar forma na sua mente: uma batida pesada e urgente. A trilha sonora do apocalipse zumbi em Itapira.
E Mc Jotinha, o funkeiro da periferia, seria o protagonista dessa nova e macabra realidade.
***
O ar em Itapira, antes impregnado com o aroma doce do café e o murmúrio calmo da vida interiorana, agora fedia a sangue e decomposição. O sol implacável de uma manhã que prometia ser como qualquer outra revelava um cenário de horror indescritível.
Corpos cambaleantes, pele esverdeada e olhos vidrados vagavam pelas ruas, gemidos guturais rompendo o silêncio da morte.
Mc Jotinha, nervos à flor da pele e coração martelando no peito, movia-se pelas vielas como uma sombra. O radinho, seu fiel companheiro, jazia em pedaços depois de um encontro brutal com um dos “nóias”, como ele chamava agora os infectados. A música tinha sido silenciada, substituída pelo som horrendo da nova realidade.
A verdade por trás das marmitas — sussurrada entre os poucos sobreviventes que encontrou pelo caminho — era ainda mais revoltante do que ele imaginava. Não era apenas um vírus letal. Era uma arma biológica, planejada para dizimar a população pobre de Itapira. Um “corte de gastos” frio e calculado pelo governo. A indignação fervia em suas veias, misturada ao medo lancinante de ser a próxima vítima.
Em sua jornada desesperada, Jotinha encontrou outros itapirenses: Dona Betinha, uma senhora de fibra com um terço na mão e uma espingarda enferrujada do falecido marido caçador; Zé Espoleta, um mecânico habilidoso que transformava ferramentas em armas improvisadas; e Bia, uma estudante de enfermagem que mantinha a esperança viva com seu conhecimento precário. Juntos, formaram um laço frágil de humanidade em meio ao caos.
O antigo mercado municipal, agora infestado, tornou-se ponto crucial. Rumores de suprimentos abandonados e, talvez, um veículo funcional os atraíram para lá. A incursão foi um banho de sangue. Hordas famintas surgiam de todos os cantos. Jotinha, com o facão manchado de sangue seco, descobriu uma fúria primal que nunca soube que possuía. Sua agilidade, antes usada para driblar a polícia nos rolezinhos, agora era a diferença entre a vida e a morte.
Dentro do mercado, encontraram apenas desolação e mais mortos-vivos. A esperança de um carro se esvaiu, mas Bia conseguiu reunir alguns medicamentos e ataduras. A cada infectado que tombava sob seus golpes, a raiva de Jotinha contra o governo só aumentava. Aquelas criaturas eram o resultado de um plano cruel, e cada gemido faminto era um lembrete da injustiça que haviam sofrido.
A noite os encontrou escondidos em uma antiga igreja. As orações silenciosas ecoavam pelas paredes frias. A fé de Dona Betinha era um pilar. A praticidade de Zé Espoleta, uma âncora. E a esperança teimosa de Bia, uma luz tênue na escuridão.
Jotinha, no entanto, sentia um vazio crescente. A música, sua válvula de escape, tinha sido silenciada. Mas, no silêncio opressor, um novo ritmo surgia: o ritmo da vingança.
A notícia de um possível refúgio em uma fazenda isolada reacendeu uma chama de esperança. A jornada até lá foi infernal, cruzando plantações abandonadas e estradas bloqueadas por carros carbonizados.
Em um confronto particularmente brutal, Zé Espoleta foi mordido. A despedida foi rápida e dolorosa. Jotinha o carregou até a “igreja da praça”. Zé, já sem forças, deitou-se diante da imagem de Santa Maria e começou a rezar. Durou cerca de 15 minutos. Jotinha, após a prece do homem, parou, respirou fundo… e estourou a cabeça dele com uma martelada. Ele martelava e chorava ao mesmo tempo.
Finalmente, avistaram a fazenda. Mas não estavam sozinhos. Um grupo de saqueadores, armados e cruéis, já havia se instalado ali, explorando os recursos e aterrorizando qualquer sobrevivente que chegasse perto. O apocalipse havia revelado não apenas a brutalidade dos mortos, mas também a depravação dos vivos.
Jotinha, Dona Betinha e Bia se viram encurralados. A luta que se seguiu foi desesperadora. A fé de Dona Betinha virou coragem implacável. A inteligência de Bia virou táticas improvisadas. E a fúria de Pedrinho se transformou numa dança mortal com o facão. Ele se movia com a raiva de toda Itapira correndo em suas veias, cada golpe um grito silencioso contra a injustiça.
***
No meio do caos, Pedrinho viu um dos saqueadores com um rádio comunicador. A ideia o atingiu como um raio: se conseguisse aquele rádio, talvez pudesse transmitir a verdade sobre o que aconteceu em Itapira para o resto do mundo.
Com uma ousadia insana, ele avançou, desviando de golpes e mordidas. Conseguiu arrancar o rádio, mas, no instante seguinte, sentiu uma dor lancinante na perna. Uma mordida.
O mundo girou. A raiva e a frustração ameaçaram consumi-lo. Mas ele olhou para Dona Betinha e Bia, rostos marcados pela luta e esperança. Ele não podia desistir.
Com o último suspiro de força, ligou o rádio. A estática crepitou por um momento antes de ele começar a falar, a voz rouca e embargada pela dor, mas carregada de uma verdade brutal:
“ Aqui é Itapira… Alguém me ouve? O governo… eles nos mataram… mandaram um vírus nas marmitas… Não foi acidente… Foi um plano.”
A voz falhou, a visão embaçou. Mas ele continuou, com a força de quem não tinha mais nada a perder:
“Aqui é Itapira… os nossos “amiguinhos” vermelho e amarelo, como modo de mostrar seu poder, enviaram marmitas infectadas… Não se escondam, lutem! A opressão só acontece em nossas mentes… a justiça fazemos com nossas mãos… morte ao Planalto!”
A transmissão morreu. Assim como a luz nos olhos de Mc Jotinha.
Mas sua mensagem, lançada ao éter em meio ao apocalipse, carregava a semente da verdade, uma acusação silenciosa ecoando no vazio de um mundo em ruínas. O funkeiro pobre de Itapira, que só queria cantar seus funks, tornou-se, em seus últimos momentos, a voz de uma cidade esquecida. Um mártir involuntário na história sombria do apocalipse zumbi que começou com marmitas envenenadas.
E talvez, em algum lugar, alguém tivesse ouvido. Talvez a verdade, por mais terrível que fosse, sobrevivesse ao silêncio da morte.
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